domingo, 12 de dezembro de 2010

O Condor prisioneiro


No mês de fevereiro de 1907, com dezoito anos de idade, eu adoeci gravemente na fazenda Condado, no município de Quixeramobim, onde me encontrava, gozando as farturas do inverno no sertão cearense. Dessa fazenda á estação da Estrada de Ferro de Baturité, onde se tomava a trem para a capital do Estado, levava-se um dia de viagem a cavalo. Receando não poder fazer mais tarde o trajeto ou ter de fazê-lo dificilmente em rede ou liteira, aproveitei pequena melhora e pus-me a caminho. A distancia habitualmente vencida de sol a sol num galope continuo, tive-a de percorrer em dois dias, dormindo em uma casa amiga. Cheguei exausto, na tarde do segundo dia, na povoação do Juá, onde na manhã seguinte poderia tomar o comboio, que, à noite me deixaria em Fortaleza. Estava tão abatido e tão desconsolado que o meu hospedeiro se encheu de piedade. Era um velho mulato chamado Antonio, não me recordo mais de que, dono de pequena casa nos arredores da estação, na qual, por uns três mil reis, a gente jantava e pernoitava. Ajudou-me a apear, levou-me para uma rede, trouxe-me caldo de galinha, ovos quentes e leite. Reconfortado embora, eu lhe disse que tinha certeza de morrer, quando chegasse em casa e abraçasse os meus. Essa certeza, aliás; se enraizara na minha alma com. aquela enfermidade que me surpreendia em plena adolescência de modo tão cruel.

Ele consolou-me como pôde. A noite caiu. O risinho das corujas e o grito das raposas vadias vieram das catingas próximas. Depois, o luar derramou sua prata imponderável no terreiro da casa e os urutáus esganiçaram-se ao longe. Era hora de dormir.

A minha rede estava armada em diagonal na pequena sala matuta que se chama cupiá. Não tinha janelas. Uma porta comunicava-a para o interior. Outra para fora. Esta era dividida pelo meio e, desde que se fechasse a parte de baixo, se transformava em janela. Fechei-a pela metade, pensei um pouco, com lágrimas nos olhos, na minha triste situação de saúde, na minha solidão tão longe de minha família; e enfim adormeci.

Tive um sonho nessa noite que me impressionou para toda a vida. Já lá se vão vinte e sete anos e ainda o tenho tão vivo na memória como naquela noite. Eu estava debruçado na meia-porta, olhando o terreiro enluarado da casa do mulato Antonio. A tabatinga batida do solo parecia prata polida.

Sobre ela se estendia dum lado a sombra movediça dum mulungu velho que se erguia perto do oitão e servia para se amarrarem os cavalos. Na pulverização prateada do luar,como uma névoa misteriosa, todos os vultos de todas as cousas se esbatiam, se diluíam, se espiritualizavam. De olhos baixos, eu pensava na morte, tão cedo, foice cruel que me cortaria todas as esperanças dum coração ao amanhecer... De súbito, um mandamento imperioso e oculto fez-me levantar a cabeça. Dei com uma cousa informe e negra, parecendo o cadáver dum grande animal desconhecido, estendido na luz prateada do terreiro. E, em volta dele, crocitando, um bando de aves sinistras, de urubus, sem dúvida, que eu não distinguia bem. Uma voz me disse com um tom de comando: - Aquilo ali é o teu Brasil! Em vez de pensares na morte, cobra ânimo, vive, toma dum pau e afugenta aqueles bichos!

Eu acordei sobressaltado. Não estava na rede e sim debruçado na meia porta, olhando o luar de prata que fulgurava no terreiro humilde da hospitaleira casa sertaneja e dentro de cujo esplendor brincava, ao balanço do vento da madrugada, a sombra rendilhada do velho mulungu...

A alguns dos meus amigos mais íntimos tenho contado esse sonho curioso, cuja impressão jamais sé apagará no meu espírito. Não morri da doença que me assaltou aos dezoito anos. Dois anos mais tarde estava radicalmente curado e a gozar uma saúde de ferro que até hoje, graças a Deus, tem sido minha companheira. O sonho sempre vivo na lembrança.

Pois bem, ao remexer arquivos e ao ler relatórios maçudos para tirar a documentação deste livro, a cada passo o sonho se refazia na minha memória. O nosso Brasil é a carniça monstruosa ao luar. Os banqueiros judeus, a urubuzada que a devora. E Deus me deu vida para que eu tivesse a coragem de rasgar o véu que encobre os verdadeiros exploradores do povo brasileiro, de mãos dadas aos políticos e estadistas incapazes ou corruptos.

Sei que o poder colossal a que aludia Barbacena jamais me perdoaria a ousadia e que talvez o meu fim seja o de todas quantos tiveram igual audácia: o veneno ou o punhal pelas costas. Não importa. Só e pobre, eu não me arreceio, pelo bem do Brasil, de desafiar o Golias encouraçado de ouro e armado de ponto em branco. Du luxe! como diria Cyrano de Bergerac. Um dia, os brasileiros, lendo este livro, verão que houve um brasileiro capaz de enfrentar a urubuzada...

Bons ou maus, os anos passaram e eu fui vivendo, dentro do liberalismo enganador, na ignorância do problema judaico e de sua influencia direta sobre nossos destinos. Um dia, em plena maturidade de corpo e de espírito, enfronhado já na grave questão, entrei pela tarde no Jardim Zoológico.

Próxima à porta, havia uma jaula e dentro dela um condor prisioneiro. O seu âmbito era estreito para que a ave colossal pudesse desfraldar as largas asas. Tinha-as por isso fechadas.

Estava pousada no tabuado nu e liso. Um frêmito ligeiro de irritação agitava às vezes, rapidamente, a sua coleira de plumas claras, da qual sobressaía a cabeça purpurina.

Naquela atitude concentrada, eu senti uma dor tal, um sofrimento tão profundo que a emoção me ganhou a alma e ali fiquei meditativo muito tempo.

O animal não se movia. Era como um vulto de metal ou pedra pintado a cores. E os seus olhos redondos, ourelados de amarelo, mantinham-se baivos. Atitude hostil, de fundo, silencioso desespero que se traduzia num desprezo absoluto por tudo o que o rodeava.

Contemplei o condor prisioneiro e compreendi a sua tortura formidável. O olhar feito para o descortínio das alturas, o panorama das ibiturunas majestosas com os seus picos coroados de neves eternas, abraçando os vales em que os rios parecem fios de cristal e os rebanhos frócos perdidos do algodão das nuvens; o olhar feito para as cordilheiras ensopadas de sol ou envoltas nas gazes das névoas, para fitar os espaços azuis sem fim, ali confinado entre a poeira do chão batido de pés humanos, meia dúzia de arbustos raquíticos, uns muros de pedra, grades e multidões de visitantes ignaros! As asas, pálio de penas magníficas, criadas para o vôo rápido e glorioso, para o rauso homérico das crias ou o combate de vida e morte com os rivais, para o remigio sereno acima dos picos andinos, para a ascensão sublime do azul, ali amarradas pela angostura da gaiola, sem se poderem ao menos espreguiçar, mortas apesar de toda a sua força latente, inúteis, bambas, enferrujadas! E as garras armadas de laminas cortantes, movidas por músculos de aço, preparadas pela natureza para levarem uma rez ou um homem aos píncaros dos Andes, para despedaçarem a presa no rebordo dos precipícios que se afundam de quatro mil metros, para os gloriosos combates aéreos nas altitudes silenciosas e iluminadas, ali se embotando ao contato vulgar dumas tábuas de pinho!

E, compreendendo toda a angústia da grande ave cativa, sofri um momento a mesma dor que ela.

De repente, numa nêsga de azul que se avistava por entre as franças duma árvore esgalhada, ao pé da jaula, dei com uma revoada de urubus, muito alta. Como que um instinto secreto advertiu o condor. Inclinando ligeiramente a cabeça, 147 procurou com a sua pupila negra riscada de ouro o que eu observara. E viu o giro dos urubus no espaço solheiro. E viu a imagem da Liberdade!

Acompanhou-os nas suas evoluções circulares e, quando desapareceram da nêsga do céu que a folhagem permitia avistar, baixou de novo a cabeça empurpurada na sua atitude de alheamento e de dor recôndita, diariamente reconcentrada. Antes, porém, um olhar de soslaio para mim com um leve estirar da asa lenta, como a me dizer: - Homem, és co-autor da monstruosa injustiça que me tolhe o gozo da liberdade e da vida! Eu, que sou a glória das asas nas alturas dos Andes e me perfilo heráldico nos brasões das Repúblicas do Continente, aqui manietado, inutilizado e só, enquanto que as negras aves covardes, vis e nojentas, que se alimentam da podridão, essas têm o domínio do espaço e revoluteiam no céu azul sob o tépido banho da luz solar. E, como são repelentes e mesquinhas, ninguém as prende em jaulas para mostrá-las, aos domingos, aos caixeiros de venda e aos meninos das escolas públicas!...

Eu saí, naquela tarde, cabisbaixo e concentrado como o condor, do jardim em que ele jazia preso. O meu pensamento inquieto e dolorido batia asas continuamente como um inseto prisioneiro no vidro duma janela, até que apreendeu a imagem que tivera diante dos olhos:

O condor poderoso, mas aprisionado, era o Brasil, e os urubus livres e gozadores, os políticos que o venderam e os banqueiros que o compraram.

E eu decidi escrever este livro.

BRASIL,

Brasil, Brasil, meu querido Brasil, não te concentres mais, como o condor prisioneiro, na tua grande dor! A tua concentração e o teu desprezo eles chamam de preguiça, de inércia, de jecatutismo. Estás sendo caluniado. Vamos, acorda do marasmo do teu desespero, distende as asas possantes e soberbas, amola o bico anavalhante, desembainha as lâminas das garras formidáveis! Eia! prepara-te para o combate aos urubus traiçoeiros e nefandos! Escuta! Não ouves, no fundo dos séculos, esse retumbo soturno de passos que marcam a imensidão das tuas terras virgens povoadas de onças, de papagaios e de índios nus, todos empenachados de palmeiras verdes? São as botas dos bandeirantes, cujo ritmo embalou o teu berço de taquara. Não ouves agora outro tropel mais próximo, um tropel que os teus ouvidos nunca ouviram? São os passos de novos bandeirantes, são os homens vestidos de verde, vestidos da cor da esperança, que vêem quebrar as grades de ferro e as grades de ouro desta prisão!

Então, ó grande e infeliz Condor Prisioneiro, com um grito triunfal que espantará todos os urubus em todas as carniças do planeta, tu desfraldarás o pálio magnífico das grandes asas que Deus te deu para os grandes vôos e subirás para as alturas azuis do espaço. E a vasta sombra das tuas asas passeará vitoriosa sobre o mapa das nações!


Gustavo Dodt Barroso

Do livro "Brasil, Colônia de banqueiros"

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